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    16/12/2019 09h58 - Atualizado em 16/12/2019

    Márcio Vinicius, cenógrafo e figurinista

    "Fazer a cenografia de "Maria Peregrina" é um presente pra mim"

    Adriana Dias - Da Redação

    Considerado um discípulo de Gabriel Villela, com quem trabalha há muitos anos, Márcio Vinicius tem luz própria e vem conquistando tanto o mundo artístico como o corporativo, com sua empresa Mais Cenografia. Natural de Penápolis (SP), foi em Manaus (AM) que teve seu maior contato com o universo do teatro e, em São Paulo, se encontrou como profissional deste mundo que ele considera sua casa: os palcos.

     

    Mas atrás dele, nos bastidores, criando cenários, figurinos, tais como nos espetáculos para teatro (Hécuba, Crônica da Casa Assassinada, etc), empresariais (Lojas Marisa e Riachuelo) e eventos (Colégio Vértice). O artista atribui parte do seu gosto pelas artes à mãe, que era artesã de crochê, e ao pai, que era pintor.

     

    Mas, que foi realmente com grandes mestres do teatro que se viu encantado com este universo que são Chico Cardoso, de Manaus, José Carlos Serroni, de São Paulo e Gabriel Villela, de Carmo do Rio Claro. E esta ligação com ‘Biel’ acabou fazendo com que, anos mais tarde, conhecesse o também diretor de teatro Maurílio Romão, a quem veio há alguns dias fazer o trabalho de cenografia do espetáculo Maria Peregrina, obra de Luis Alberto de Abreu, em comemoração aos 7 anos da Trupe Ventania, que entra em cartaz em breve, e momento ao qual Márcio Vinicius escolheu carinhosamente para fazer a comemoração dos meus 30 anos de trabalho. Ele esteve na Folha a convite do Entre Prosas onde contou um pouco da sua trajetória.

     

    Folha da Manhã – De onde você, que é literalmente do mundo, veio?

    Márcio - Nasci em Penápolis, interior de São Paulo, mas morei 10 anos em Manaus. Eu comecei minha carreira lá. Cheguei e fui trabalhar, na verdade fui fazer uma aventura, pois era muito jovem, isso foi em 1990. Incrivelmente, por exigência da empresa que eu estava trabalhando na época, que era de máquinas fotográficas descartáveis, fui levado a fazer teatro. Meu chefe dizia que eu tinha muito jeito, apesar de eu trabalhar na área de cartão de crédito, que não tinha muito a ver com arte. Eu já tinha feito algumas coisas, como teatro de igreja quando eu era mais novo, uns 13, 14 anos, e me inseri em outro grupo, mas era complicado porque não tinha aceitação familiar, até pela época, fazer teatro não era algo fácil no interior. É engraçado porque quando eu era mais novo, eu pedi para entrar em uma aula de piano e, depois, no ballet, porque meu sonho era dançar, mas novamente eu não consegui e não foi adiante. Foi algo que sempre tentava, mas não era permitido. Porque eu ia para a escola e eu via que as aulas para bailarinos eram de graça, e eu só comecei a burlar isso com 13 anos, que eu dava uma voltinha com meu pai e fugia para ir ao teatro apresentar.

    FM – De alguma forma sua família era ligada às artes?

    Márcio – Diretamente não. Minha família, embora fosse maravilhosa, tinha essas coisas de não ouvir até mesmo música, porque não tinha essa permissão, era muito restrito. Eu fui conhecer minha primeira exposição de arte com 15 anos, porque eu comecei com um relacionamento escondido, e essa pessoa me levava em galerias e me apresentava coisas relacionadas ao mundo da arte. Eu sempre gostei de desenhar, pintar. Mas o mundo das artes não me era permitido.

    FM - E quando acontece a sua descoberta pelas artes e ingressa nela?

    Márcio – Com 15 anos eu dei uma guinada e comecei a decidir o que ia fazer, então comecei a fazer ballet e também a fazer um curso de desenho de moda que estava sendo oferecido numa academia de Penápolis. Foi aí que começou a relação com o tecido, o pano, porque minha mãe, que me sustentava, fazia isso através do crochê e artesanato, então eu que desenrolava os fios dos novelos para ela. Meu pai era um artista também e eu, muito novo, também aprendia a fazer tinta, misturá-las, pintar. Na verdade, a gente não podia fazer arte, como nós chamamos, mas existia o artesanato, uma cultura que estava inserida de alguma forma, digamos pelas beiradinhas. Então, fiz esse curso, dei um tempo e comecei a trabalhar como modelo também, e aí fui em festival de dança, e assim foi até os 20 anos. Quando fui embora para Manaus, e eu tinha uma missão que era fazer um trabalho para um cunhado, que não funcionou, mas eu acabei ficando em Manaus.

    FM – É uma cidade com artes um pouco diferentes da realizada nesta região do país?

    Márcio - É um local espetacular. Lá comecei como ator, que eu fui fazer um curso de ator, por especificação da empresa ‘Sonora’ e dali eu pedi demissão do trabalho, e fui fazendo os meus trabalhos como ator, ensaiando espetáculos por um ano. E, aí foi onde começou que não tinha quem fizesse certas peças, então comecei a fazer, inicialmente roupas dos meus personagens, e começaram a me chamar e as coisas foram acontecendo e eu comecei a me encantar pelos bastidores, apesar de ficar ainda como ator um tempo, mas o encantamento de ver todas as coisas pelas coxias me fascinava.

    FM - Além dos figurinos, você faz outras atividades relacionadas ao teatro?

    Márcio - Faço cenários. Os figurinos eu fiquei muito tempo, ainda com muito medo. Recentemente, mexendo nos meus guardados, descobri algumas peças que eu tinha e eu nem lembrava. Então, o uso da quantidade de tecido, das calças por baixo que eu nem me lembrava, e hoje quando eu faço os figurinos vejo e percebo uma linguagem ali que eu desconhecia. E eu só fui definitivamente reconhecer essa linguagem em São Paulo, porque Manaus tinha uns teatros muito particulares, e na época, era muito mais ilhado do que hoje, porque hoje é muito mais fácil o acesso à internet, mas nos anos 1990, não tínhamos literatura, a gente não tinha material. Nós ouvimos falar de José Carlos Serroni, mais conhecido como JC Serroni, no Fantástico, e ele era muito maravilhoso, ainda é, porque eu saí de Manaus para ir trabalhar com ele em São Paulo. Mas a gente tinha o nosso teatro, e pesquisando e descobrindo como que faz, como se faz espuma, como se faz isso ou aquilo, e o cenário era muito presente, eu fazia alguns figurinos e fazia muita cenografia, era tudo maravilhoso e coisas que foram uma das experiências mais incríveis da minha vida.

    FM – Foi amor à primeira vista, por figurinos?

    Márcio - Quando eu vi um figurino e perdi o medo de fazer foi em 2004, e era para uma obra específica, foi “Era uma Vez um Rio’’, de uma escritora mineira, Martha Pannunzio, e a filha dela estava fazendo também, então eu fiz e era responsável pela cenografia. Os figurinos, no entanto, não eram meus, mas a figurinista não entregou, então falaram comigo para eu fazer, já que eu tinha algumas coisas em casa, e eu tinha ido para a casa da minha mãe, e eu sempre voltava com várias coisas, panos e tudo desse tipo. Então, ali, eu já fui emendando uns crochês com algumas camisas, juntando à mão, e fizemos os figurinos, eu fui colocando alguns detalhes, algumas roupas eram meio barrocas, outras meio folclóricas, mas fui transformando as roupas. O primeiro prêmio que tive foi como cenografista, e com esse cenário.

    FM - Você tem muitos prêmios?

    Márcio - Na verdade não tenho muitos, mas são super suficientes. Meu primeiro prêmio foi em cenografia, depois três em figurino, depois cenografia.

    FM - E como você começou a trabalhar com o Gabriel Villela?

    Márcio - Ah, o Gabriel é uma entidade e é espetacular. Com ele eu fiz cenografias, nunca cheguei a fazer figurinos com ele, porque este é o universo dele. Fazia objetos para ele e tudo mais e ele fazia os adereços e figurinos mesmo, porque ele tem uma autoridade sobre figurinos que é absolutamente equilibrada e singular, que era lindo. E ele é uma influência, como diretor, artista, tudo, aqui e no mundo. Nossa parceria surgiu em 2000 ao ver a ‘Ópera do malandro’, no TBC, quando acabou o espetáculo eu pensei: “Se vim para São Paulo para continuar a fazer teatro, este é o teatro que quero”. No sentido concreto, em 2003, quando Gabriel me convidou para fazer o ‘Auto da Liberdade’, em Mossoró. Foi uma das experiências mais fantásticas que tive, Gabriel confiou em mim e deu liberdade para trabalhar com os artesãos de Mossoró. Foi uma confiança mútua, e ele só me conhecia por ver meu trabalho no Espaço Cenográfico do Serroni.

    FM – Você trabalhou também com Serroni, que é outro grande artista, certo?

    Márcio - Aprendi muito com Gabriel e com o Serroni. A minha primeira influência de figurino foi um do Chico Cardoso, que ele é um artista espetacular de Manaus, que também tinha um grupo maravilhoso de teatro lá, que eu trabalhei, e a minha primeira influência de figurino talvez tenha sido dele, que tinha muita cor, muito corte. Apesar de que a primeira influência mesmo tenha sido familiar, minha mãe que pegava dois, três ou quatro tipos de linhas, misturava tudo para fazer uma coisa só e isso eu acompanhava, então isso me influenciou. No figurino em si, começa com o Chico, em Manaus, e também na ópera e em várias coisas que eu acompanhei quando estava no início de carreira. Eu acho que os 10 anos em que eu fiz teatro, em uma escola, era uma escola sem literatura, então era onde a gente descobria e, no meio disso, tive meu primeiro contato. Em São Paulo, quando vi um espetáculo do Gabriel, eu percebi que eu realmente gostava de fazer isso, porque eu estava trabalhando e fazendo as coisas para o Serroni e descobrindo várias outras coisas e, nesse meio tempo, eu recebi um convite do Gabriel para a turnê e, naquele instante, tudo se abriu.

    FM – Como é o seu processo criativo, você tem um ateliê?

    Márcio – Sim, eu tenho um ateliê de figurinos, um espaço de construção de cenografia e figurinos chamado Mais Cenografia, onde vivemos praticamente 24 horas por dia. Basicamente, a gente tem clientela suficiente para fazer figurino de domingo a domingo. Somos uma equipe de 15 pessoas, extremamente envolvidas e apaixonadas pelo que faz, sendo que tem gente comigo há mais de 10 anos.

    FM – Como Passos surge na sua vida e como foi fazer o trabalho para a Trupe Ventania?

    Márcio - Conheci Passos há 10 anos. Primeiramente, não pelo teatro, mas por conhecer um amigo daqui, o Raimundo Reis, que é um fofo. Então eu vim aqui umas duas vezes, depois vim, novamente, uma vez conhecer a casa do Carlos Jorge Ribeiro, o Caju, com Gabriel Villela e, posteriormente, conheci Maurílio Romão, em Ouro Preto. Ali começou o ‘namoro’, e me senti tocado a aceitar o convite feito para vir a Passos para fazer a cenografia do espetáculo da Trupe Ventania ‘Maria Peregrina’, de Luis Alberto de Abreu, em comemoração aos 7 anos da trupe. E eu escolhi fazer esta peça em comemoração aos meus 30 anos de trabalho. Eu tenho inclusive uma peça para estrear em São Paulo, um musical do Jardim da Meia-noite e não vou participar da estreia para estar aqui em Passos.

    FM – Você assistiu a um ensaio para fazer a criação?

    Márcio – Exatamente. Vim para Passos e assisti. Fiquei tão maravilhado que precisei assistir novamente no outro dia, tamanha a emoção. E o que assisti foi tão bom que eu preciso fazer algo que esteja à altura. Então estamos aqui, na verdade, em uma fazenda em São João Batista do Glória, onde estamos fazendo as montagens. Fizemos um verdadeiro ateliê na roça. Já passamos pelo processo de tirar medidas dos atores, conversamos para que a gente pudesse seguir com a construção e a criação. Na segunda quinzena de janeiro vamos fazer uma incursão nas matas próximas a Passos para pegar os galhos em que faremos parte dos figurinos, tudo manualmente e tudo isso costurado nos figurinos. Todo esse detalhamento é possível, pois, os materiais são extremamente variados. As pessoas, aqui, nos ofereceram grande incentivo e entenderam exatamente nossa forma de atuar. Pois, não existe um material específico para fazer, justamente porque a intenção é de entender que estamos trabalhando com uma trupe, artistas de rua. Existe um resgate emocional, não religioso, mas metafísico. Algo como: desta calça e deste pano transformamos em algo novo. Vamos participar da estreia e ficar ainda mais alguns dias. Só vou embora quando tudo estiver pronto. E aguardem um dos melhores espetáculos da Trupe Ventania, o “Maria Peregrina”, que, não por mim, claro, mas por toda equipe, está maravilhoso. Fazer a cenografia de “Maria Peregrina” é um presente pra mim.
     

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