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    21/09/2019 10h49 - Atualizado em 21/09/2019

    Dia a Dia: A Rifa da Sanfona

    O bar fervilhava na noitinha de sexta-feira em roda do balcão onde apetitavam os tiragostos trazidos pelos artistas amadores que retiravam da frigideira obras do mais alto agrado às papilas gusto-linguais. Tudo no self-service (expressão pouco condizente por excesso de finesse ao ambiente mais prá copo sujo) da cerveja apanhada sob risco dos mais baixinhos quase caírem dentro do freezer à lata de azeitona no terceiro andar da parteleira forrada de jornal, alcançada com adjutório do quinto andar da escada.

    No repente, surge sabe-se lá daonde um fulano com tufos de papéis na mão, colados em macinhos, miando baixinho, humildezinho, carinha de coitadinho e convence o primeiro freguês de suas aflições pecuniárias e do expediente achado a levantar uma graninha: rifafa uma sanfona. Mas não era qualquer sanfona não! De estimação, oitenta baixos que até o Mário Zan quisera adquirir certa ocasião em que lhe abrira os foles. Dois reais o bilhete. O outro recurso seria roubar, porém tivera criação honesta, religiosa, ladrão nunca havéra de ser. E ver a panela vazia com os caburézinhos em casa de bico aberto que nem passarinho no aguardo do de comer trazido no papo dos pais doloria o peito, desesperava, atentava ao mal-feito. Água formando nos olhos de comoção ante a miséria descrita, indignado com os ratos de Brasília que deveriam solucionar o problema - assunto principal que acompanhava as beberagens do dia-a-dia - o freguês resolve assumir:

     - Me arruma logo cinco e toma aqui dez pratas.

    A cervejada da hora amolecia os corações, o primeiro convencido a acender a solidariedade afogueando-a em rastilho.

     - Mais cinco prá mim.

    - Prá mim também.

    - Três aqui, ó.

    Todos enfiando a mão no bolso, tirando carteira, ajuntando miúdo. Todos. Quer dizer, todos, menos um. Tentando amoitar a cara entre a estufa em desuso e o colorido baleiro giratório, o "brimo" Nagib procurava passar de liso na gastança. Só que botequeiro não perdoa e, em uníssono, a turma lhe cobra:

    - Munheca de samambaia. Vamos logo, desencrava os cobres.

    - Hoje não tô preparado. 

    - Importância não. Te empresto.

    - Pode te fazer falta.

    - Bobagem.

    Acuado no ridículo, entrega os pontos e saca um monte de moedas das quais separa dois reais e, em sofrimento e contrariedade, exige num último recurso:

    - Tá bão. Mas só se tiver aí o número da cobra 433.

    O fulano tinha.

    - Na mão, chefe. Pode assossegar que tá barato. Precisão pura. Dois reaizinhos numa sanfona de oitenta baixos que o Mário Zan gavou? Negoção da China.

    Com raiva da derrota, pegou o bilhete, conferiu o número, as letrinhas "inaudíveis" das regras no verso e guardou-o na carteira. A salva de palmas geral e irrestrita encerrou de vez a questã, de vez mesmo, porque em ninguém havia a intenção sequer de se lembrar da rifa quanto mais de conferí-la... menos um que investira penosos dois reais.

    - Lavei a pôrda! -cantarolou lá fora o fulano com os resultados obtidos no boteco. Dentro o Nagib choramingava:

    - Não pode deixar esse povo explorador entrar aqui!

    Mas a cabeça girava na busca de alguma coisa em casa que pudesse rifar também, tamanha a facilidade de se topar otários perdulários. Tirando a patroa, quase tudo servia. ("Deixa o pessoal esquecer e empurro neles aquele guarda-roupas encostado na casinha da horta! Ou o toca-disco três em um! Era esperar que bebessem um pouquinho de mais e chegasse com a rifa!").

    As semanas até o prazo do sorteio voaram rápidas, bilhetes ignorados sumariamente, esquecidos nos bolsos de calças e destruidos pelo empuxo do tanquinho ou da máquina de lavar. Nenhuma preocupação em ganhar uma sanfona de estimação, de oitenta baixos, cobiçada pelo Mário Zan. Claro, menos o...

    Hoje o espaço está curto para o tamanho do caso. Sábado que vem, arremato.
     

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